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Archive for the ‘Sentimentos’ Category

Saudade

 

É mistura de vaidade,

orgulho

E sobriedade.

É lembrança, relance

Pesar constante

Do peso que é viver.

 

É a bailarina que, cansada,

Vê na sua dança não ritmada

A lembrança do começo

Em que dançava sem dor na perna,

No braço e na alma.

Que agora, sem calma

Encontra na rotina,

Uma deusa de maldade

Aquele bichinho,

Outra hora chamado saudade.

 

Saudade não dói, não lateja

goteja

Uma voz muda no barulho do mundo

Encarregada de lembrar o coração

O caminho de casa

Quando a casa mudou de lugar

Pra outro olhar.

 

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Tardia

Olhei para trás e só enxergava um precipício no lugar onde um dia nosso amor habitou. Quis correr e me jogar nos primeiros dez dias, mas permanecia parada olhando um caminho que já não tinha retorno. Mastigava lembranças para alimentar meu coração, embora o sentisse mais fraco todos os dias. Pouco do que eu lembrava parecia verdade, embora eu visse tudo com mais clareza do lado de fora da nossa casa. Eu sempre arrumava um espaço pra você na minha cama, no meu lado, na minha vida. Você sempre se cansava de andar acompanhado e me deixava, sem avisos ou beijos de despedida. Dias mais tardes você reaparecia, sorrindo como se tivéssemos acabado de acordar das estrelas. Eu esquecia minhas lágrimas da noite anterior e te sorria de volta. Foram anos assim. Só demorou tanto tempo porque eu acreditava que um dia você não sairia às escondidas pelas portas da minha alma como se eu tivesse te prendido em mim. Mas agora, vendo você sorrir como se nada tivesse acontecido e sentindo meus olhos arderem pela falta de sono, percebi que eu já não posso te salvar. Sinto muito em te deixar agora, mas você já me deixou há muito tempo. Eu não ouso chamar de amor se não pudemos viver mais do que uns dias em paz.

Vomitei essas palavras para o precipício e então segui o caminho que me restava: era vazio e sozinho, mas pelo menos agora eu poderia seguir em frente e parar em alguma casa nova, sem as mesmas dores e lembranças da nossa.

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Ravensbrück (Parte 2)

Seguiram para casa juntos. Lá, passaram o Ano novo. Desiree nunca se lembraria de um momento como aquele. Perdera o pai antes mesmo de nascer, e mesmo sem saber, já havia perdido a mãe. Todos os anos, as datas comemorativas sempre eram fúnebres e não havia nada além da tristeza maciça.

Naquela altura, meses após se conhecerem, um já conhecia a história do outro. Ele prometera que todos os anos as datas comemorativas seriam grandiosas, poderiam chamar os amigos ou festejar sozinhos.

Mas, numa tarde que deveria ter sido como as outras, Adolf voltou para casa pálido e quase mórbido. Ela se adiantou perguntando se ele estava passando mal, mas ele a olhou e quase sem voz disse:

_Vista esta estrela e vá para o mais longe que conseguir. Hitler está no poder.

Era uma estrela judaica média e amarela. Havia boatos de que talvez os nazistas subissem ao poder, mas em 1933 o medo deixou de estar no sono e passou a ser diário e real.

Com lágrimas nos olhos, ela pegou as roupas que havia buscado, sem entender o porquê de ter que fazer isso sozinha e deixar da vida dele. Agora, depois da felicidade intensa que vivera, sua tristeza parecia ter tomado dimensões imensas, maior do que qualquer outra que já conhecera.

Antes de sair do pequeno apartamento, que agora parecia espaçoso demais para dar espaço a toda sua dor, olhou novamente para os olhos azuis. E, quando vira o homem que aprendeu a amar como sua única vida, entendeu o que estava acontecendo. Era a farda.

Adolf olhou-a com aquele olhar terno, sentindo suas dores se complementarem. Era como separar um coração ao meio, obrigando uma metade a guerrear com a outra, sendo que uma não podia viver sem a outra. Porém, que poderia ele fazer além de obedecer ao que lhe foi imposto, não por amor a pátria, mas por saber que amava quem mais deveria odiar?

Como num relance, os olhos de Desiree piscaram. Ainda embriagada pelas lembranças, viu o rosto de Adolf misturado ao céu. Já haviam se passado dois anos desde sua despedida, mas não havia um dia em que não pensasse sobre aquilo. Colocou a mão sobre a estrela, média e amarela, e entendeu que a única lembrança que tinha do seu amor, foi também a primeira coisa que os guardas notaram nela.

Levantou-se da cama e foi até a parte de fora do pequeno casebre em que guardavam centenas de mulheres. Geralmente, nessa hora, o chão estava lotado de restos de comida. Nenhum guarda circulava por ali recentemente, mas naquela noite Desiree foi surpreendida.

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Ravensbrück (Parte 1)

 

A janela semi-aberta deixava a brisa de verão um pouco mais confortável. Não que algo pudesse ser realmente confortável naquele lugar árido e tomado por doenças e dores, físicas e emocionais.

 Desiree olhava atentamente para o céu com algumas poucas estrelas e sentia o cheiro podre da morte, quase se comparando ao da vida. Essa era a realidade nos campos de concentração.

 Acostumadas com o sofrimento constante, outras judias dormiam. Mas ela, mesmo depois daquela longa semana, ainda sentia a esperança de que tudo aquilo acabasse de repente e pudesse sair antes de virar apenas mais um corpo fétido. Não era a morte que a assustava, era a vida que ficara incompleta.

 Seus olhos violetas olharam mais uma vez pro céu, e dessa vez, lembraram 1932. Naquela época, sorrisos ainda não eram banidos e podia andar pegar ônibus ou até passear de bicicleta num fim de tarde. Vez ou outra reclamava das estradas que pegava, mas só agora sabia a felicidade de ver o sol laranja por inteiro, sem ter a visão embaçada pelas lágrimas. Porém, naquela noite, sua saudade não era de como tudo costumava ser. Ela era específica, sempre direcionada para os mesmos olhos azuis e pela última festa que fora. Talvez, em toda sua vida.

 Vestindo um casaco preto, ela entrou na casa de uma moça da vizinhança que anunciara seu casamento. Pessoas dançavam e bebiam. Não demorou muito para que ela soltasse os cabelos loiros e se entregasse a alegria dos outros. E foi num desses momentos que esbarrou com um jovem alto, de olhos azuis e que parecia conter uma aura envolta de si. Esse era Adolf. Conversaram, riram e ela sentiu ter encontrado mais do que uma pequena paixão passageira. Fazia horas que se conheciam, mas ela sabia que o amava de uma forma que nunca amara ninguém. Fosse pelo seu sorriso, pela profundidade dos seus olhos ou por ter dado a ela uma alegria desconhecida e totalmente nova. Em outros casos, denominada amor.

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Dispersa

Aonde foi que te perdi? Que me perdi? Caminhávamos juntos, em passos iguais, sem olhar pro lado ou ao menos pra trás. Talvez, por essa simetria tão inconstante, eu tenha te amado tanto. Porque a gente sempre ama quem é igual a gente, não é? Mas a gente não entende. E conflita. Porque igualdade demais sempre gera diferença. E um sempre sobra. Eu sobrei de nós. Você continuou seu caminho enquanto eu fazia as contas das noites de sono que já havia perdido. Se eu corresse um pouco, por mais desgastante que fosse, eu te alcançaria. Ofegante, cansada e sua. Mas ninguém precisa de mais cansaço do que o que a vida já dá de graça. Você fugiu, como sempre. Pra mesma direção, tão longe de mim e tão dentro de ti. Estranho saber que não importa o quanto eu esteja próxima de você, ainda corre em círculos dentro de si. No fundo, eu precisava de alguém que me procurasse. E você, procurava o mesmo que eu.

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Não sei o que procuro com essas palavras. Seu coração ainda continua preso aos velhos amores, uma biblioteca há muito fechada. Mas é que a luz acabou e eu lembrei da gente trocando mensagens a última vez que isso aconteceu. Afinal, quando a luz acaba eu quase esqueço que ainda posso te escrever cartas. De qualquer forma, não é isso. Não é nada. É só que de repente, você parece mais longe que em todos os últimos anos, e eu nem sei se vou conseguir te mandar essa folha. Finjo que você não mora apenas alguns corações longe, pra enganar essa saudade corriqueira. Mas a saudade tomou seu lugar aqui pertinho e te empurrou pra bem longe. Eu tenho perdido as palavras, você, o sono. Vizinha barulhenta essa. Sempre gritando no meu ouvido que você não vai tocar a campainha de madrugada, nem me ligar pra dizer que me odeia, me odeia tanto que não consegue parar de pensar em mim. Talvez eu tenha escutado coisas, porque o cansaço de aceitar sua partida me desgasta demais. Eu precisava te inventar, pra ver se assim, acho motivo pras minhas palavras. E razão pra bagunça que sou. Ou que sobrou.

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Imersa

Ainda me sente? Ainda me finge, me engana e me reinventa? Não sei se ainda sou suas palavras. Morei lá, sabe? Debaixo dos teus olhos, dentro deles, olhando eles sempre que precisava de um motivo bom pra escrever. Ou pra ser, qualquer coisa. Você era um motivo vazio pra coisas cheias de vida, pra coisas cheias de mim. E eu nunca me importei de ser essa parte de você. Essa parte constante, que sempre passa despercebida. Eu ainda existia, dentro de você. Mas não nas suas palavras, não na sua vida. Preciso sair de você, pra olhar você morar em mim.

Agora você é minhas palavras.

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